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Campanha da Fraternidade aborda falta de saneamento básico

Dom Alberto Taveira lança reflexão sobre as condições de vida na cidade

Foi lançada nesta quarta-feira (10), em Belém, a Campanha Ecumênica da Fraternidade 2016, que este ano aborda a falta de saneamento básico e os riscos que isso traz à saúde pública, principalmente entre as pessoas de baixa renda. Durante entrevista coletiva na Cúria Metropolitana, o arcebispo dom Alberto Taveira anunciou que a matriz da Paróquia de São João Paulo II, localizada na Avenida João Paulo II, foi escolhida para a abertura oficial da campanha, às 8h30 do próximo sábado - durante a qual celebrará uma missa - por se localizar às proximidades do Utinga, onde se faz a captação e tratamento da água utilizada em toda a cidade. Em seguida, os religiosos sairão em caminhada ecumênica até a Paróquia Sagrada Família, no Curió-Utinga. 

Este ano, o tema da campanha é “Casa comum, nossa responsabilidade” e o lema “Quero ver o direito brotar como fonte e correr a Justiça qual riacho que não seca”. “A igreja não tem condições de resolver todos os problemas, mas nós somos cidadãos e cidadãs e queremos nos envolver nos assuntos que dizem respeito à sociedade”, ressaltou dom Alberto.

A Campanha da Fraternidade é realizada anualmente pela Igreja Católica, sempre no período da Quaresma, com o objetivo de despertar a solidariedade dos seus fiéis e da sociedade em relação e buscando soluções para um problema concreto que envolva a sociedade brasileira. Há quatro anos, passou a ser ecumênica, com a união de esforços da sociedade e das igrejas do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil (Conic), que publicou o texto-base da Campanha da Fraternidade Ecumênica  (CFE) de 2016, realizada ainda em parceria com a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). 

“A solução começa conosco: quando você não joga lixo na rua, não deixa água acumulada, não desperdiça água, cuida do lixo”, disse dom Alberto. A Igreja também espera contribuir no combate a doenças, especialmente dengue e zika. “Ao tocar nesse tema, faremos com que as pessoas se sintam mais responsáveis. Nós poderemos ajudar muito, porque uma das coisas que precisa ser feita é eliminar os criadouros do mosquito que transmite as doenças”, acrescentou. 

O coordenador de Pastorais da Arquidiocese de Belém, monsenhor Raimundo Possidônio explicou que já foram feitas reuniões em Icoaraci, no Centro de Belém e em Marituba para conhecer a realidade de quem vive sem saneamento básico, levantar propostas e ouvir as ações previstas pelos órgãos de governo. As igrejas também devem estudar e trabalhar em cima do texto-base da campanha, que está organizado em cinco partes, a partir do método ver, julgar e agir, e onde são apresentados os objetivos permanentes, os temas anteriores e os gestos concretos previstos durante a campanha. O objetivo é despertar o interesse sobre o tema, ter atitude sobre o assunto e, ao mesmo tempo, exigir a execução do plano básico de saneamento municipal. Durante a Quaresma, são feitoss encontros familiares, nas escolas. 

No Domingo de Ramos serão colhidas ofertas nas igrejas para o fundo de solidariedade: uma parte do dinheiro arrecadado irá para o fundo nacional e outra parte ficará no Estado, para ajudar no desenvolvimento de projetos.  

Água tratada não chega a 35 milhões. Cem milhões vivem sem esgotos. 

O saneamento básico envolve um conjunto dos serviços que incluem infraestrutura e Instalações operacionais de abastecimento de água, esgotamento sanitário, limpeza urbana, drenagem urbana, manejos de resíduos sólidos e de águas pluviais. De acordo com o Instituto Trata Brasil, no entanto, mais de 35 milhões de brasileiros não têm acesso sequer a água tratada e 100 milhões não contam com coleta de esgoto. 

Ex-presidente da Cosanpa e ex-secretário municipal de Saneamento, o engenheiro sanitarista Luis Otávio Mota Pereira diz que a situação da região Norte é muito mais problemática do que em outras regiões do Brasil, embora o problema de saneamento básico seja crítico em todo o País. Para ele, as regiões mais pobres têm municípios com pouca arrecadação e “não há prioridade por parte do governo federal para essas áreas”. O Pará tem índices muito ruins de coleta de esgoto e em Belém, de 10% a 15% da população não recebem sequer água tratada de qualidade. Apenas 6% têm rede de esgoto com algum tipo de saneamento, segundo dados do Sistema Nacional de Informações em Saneamento Básico (Sinisa). 

A capital paraense tem, ainda, 54 quilômetros de canais com 14 bacias. “Ainda é preciso tratar muita bacia”, avaliou. Isso contribui para o aparecimento de insetos e parasitas que podem transmitir doenças, entre as quais as provocadas pelo Aedes aegypti, como dengue e zika. “Existe falta de investimentos, principalmente nessa época de crise. A questão de água e esgoto de Belém foi passada para a Cosanpa, mas precisa também de investimentos do governo federal e parceria da população, principalmente no que diz respeito ao lixo acumulado”, acrescentou o sanitarista. 

“Quando o canal enche, alaga tudo. Às vezes, o canal está cheio de lixo, mas o próprio morador é o culpado”, confirma a administradora Alcione Gonçalves, de 42 anos, que mora perto de um canal, no bairro de Canudos. Tomando vários cuidados dentro de casa, ela tem conseguido evitar doenças na família, mas admite que vive em constante risco. “Eu acho ótimo essa Campanha abordar o tema, porque é importante despertar a conscientização das pessoas. Quando está tudo alagado, morro de medo de botar o pé na água, porque é muito arriscado”, declarou. 

Delma Silveira, vendedora de 48 anos que trabalha próximo a um canal, no Marco, enfrenta, além do acúmulo de entulho e lixo, constantes alagamentos sempre que chove. “Os maiores riscos envolvem inseto, rato e dengue. Eu nunca tive, mas a maioria das pessoas que adoece por aqui é por problema de dengue” disse.

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